Lá vou eu, de novo, dizer que um drama relativamente recente é um clássico. Mas não tenho culpa se, mesmo após quatro anos, “Oh My Venus” segue tão forte em nossa memória coletiva. Eu tenho uma relação especial com este k-drama, porque se não fosse por ele, talvez eu não estivesse aqui escrevendo para vocês no blog do Kocowa.

Sem “Oh My Venus”, talvez eu nunca teria começado a escrever sobre dramas asiáticos, como aconteceu, e muita coisa seria diferente agora na minha vida. Como uma comédia romântica pôde fazer tanto? Vem desvendar comigo, no mesmo formato de “lista de razões” que usei em “Descendants of the Sun”, em agosto, mas agora, para tentarmos entender por que a “Vênus de Daegu” segue relevante.

A dinâmica era tão natural <3

A química

Okay, essa razão não é exclusiva de “Oh My Venus”, é da maioria dos dramas que envolvem romance, pois um bom casal é essencial para amarmos uma comédia romântica (e para odiarmos também, se o casal for ruim). So Ji Sub e Shin Min-A já trabalhavam juntos em campanhas publicitárias há algum tempo e esbanjavam química em ensaios fotográficos. Sou muito grata à pessoa que (finalmente) teve a sacada genial de colocá-los juntos num drama. Entendam que estamos falando de duas pessoas muito bonitas e carismáticas, na minha humilde opinião. O casal de “Oh My Venus” é empatado no meu coração, se comparado ao de “Master’s Sun” e outros casais com o So Ji Sub.

Eu adoro como Ji Sub tem um dom de não apagar a presença das suas colegas de tela, e a maneira que seus personagens não ultrapassam a linha para se tornarem embustes, por mais rabugento que o treinador Kim fosse. Com Shin Min-A, não foi diferente. Esse casal dá uma aula sobre apoio recíproco, tem um grau de ingenuidade que rende ótimas cenas cômicas, e sensualidade na medida. Foi graças a “Oh My Venus” que eu descobri que pessoas em dramas coreanos poderiam transar (descobri bem no final, mas descobri). Até hoje, a cena da aliança e o abraço na ponte são alguns dos meus momentos românticos favoritos em dramas coreanos.

Feminismo

Hoje em dia é super comum, e desde 2017 se tornou frequente nos k-dramas, mas no final de 2015 ainda eram raros os dramas que abordavam seriamente a condição social da mulher sul-coreana. Não digo que “Oh My Venus” seja um pioneiro no geral, mas foi um dos primeiros dramas coreanos a abordar seriamente o feminismo num enredo de comédia romântica, em uma parte da trama que é inteiramente explorada pelo grande núcleo feminino, independente do casal protagonista. Fazendo desta uma história que passa tranquilamente no “Teste de Bechdel”, que analisa pontos da narrativa que envolvem as mulheres e o quanto elas falaram sobre homens (dá um Google aí).

Eu abro meu post de 2016 com a seguinte frase: “Relato de quem não esperava nada mais que uma comédia romântica clichê, mas descobriu uma Coreia feminista”. E é a mais pura verdade, até agora. Em “Oh My Venus”, sabemos quem são e pelo que passam as mulheres coreanas — no mercado de trabalho, nos divórcios, na violência doméstica, desigualdade social, família e filhos. Além das questões sobre aparência, autoestima e padrões de beleza, e como tudo isso afeta o emocional e o psicológico da mulher, numa história que quando começa juramos que terá triângulo amoroso e competitividade feminina, mas que ao decorrer joga tudo isso fora e vai além.

Saúde e autoimagem

Sinopse: Na mitologia grega, Vênus era a deusa do amor e simbolizava a beleza. No entanto, agora vivemos em um mundo materialista. A definição de beleza no século 21 mudou, e retrata ser magro como bonito. Neste drama, a personagem principal Joo Eun, que costumava ser popular por sua beleza no ensino médio, ganhou muito peso e foi dispensada pelo namorado. Então, ela decide perder peso com a ajuda de John Kim, que é um famoso personal trainer das estrelas de Hollywood. Ao mostrar os desafios de Joo Eun e John Kim, Oh My Venus tenta nos dizer que a beleza física não é tudo.

Se eu não tivesse assistido a esse drama, diria com deboche, “É fácil ensinar que beleza não é tudo usando esses dois, né?” Entretanto, como eu o assisti, posso dizer que não vale a piada e o roteiro consegue ser digno.

“Oh My Venus” tinha tudo para ser criticável sobre padrões de beleza, e quando escrevi sobre ele, há 3 anos, algumas críticas diziam que eu deveria ter comentado sobre como a história trata o corpo da protagonista. Até hoje respondo a mesma coisa: eu nunca poderia falar sobre isso porque não tenho propriedade para tocar no assunto.

Por ser mulher, eu poderia falar do feminismo, como eu fiz, mas não poderia opinar sobre o peso de Kang Joo Eun, já que nunca fui uma mulher gorda, não tenho lugar de fala sobre isso. Mas ao longo dos anos, conversei com outras mulheres que viram o k-drama e saberiam opinar muito melhor do que eu, e para minha surpresa, muitas amam “Oh My Venus”, apesar da Shin Min-A ser uma modelo que usou roupa com enchimento e maquiagem para parecer gorda.

A Coreia do Sul é um país obcecado por beleza estética, líder em cirurgias plásticas e cosméticos, mas “Oh My Venus” teve uma justificativa aceitável. O drama apenas não caiu na mesmice do “ela ficou feliz porque voltou a ser bonita”, porque no caso da Kang Joo Eun era uma questão de saúde — ela tem uma doença chamada hipotireoidismo, que afeta o metabolismo e a vitalidade. E não deu nada certo com o estilo de vida degradante que a advogada levava. Como eu mesma disse em 2016, “Ela não encontra a felicidade por ficar magra, encontra atualizando sua vida, abandonando um relacionamento falido e tendo uma vida mais saudável, de corpo e mente.”.

Por falar dos benefícios de ter um estilo de vida mais saudável, e destacar a condição econômica e social da mulher coreana, “Oh My Venus” evita ser um drama tóxico sobre padrões de beleza, e nos entrega mais do que apenas o romance “água com açúcar” e melodrama familiar. Sou muito grata por esse drama ter falado sobre tudo isso e me inspirado a escrever. Eu não estaria aqui hoje. (Essa história só tem um defeito: jogar o clichê de conhecidos da infância na última cena do drama! Totalmente fora de contexto. Aí forçou a barra.)

Para concluir, preciso comentar sobre uma das minhas trilhas favoritas, “Beautiful Lady”, cantada pelo JongHyun (SHINee), que faleceu em dezembro de 2017. Eu achei que havia conhecido o SHINee pelo Taemin, até me lembrar o quanto amava essa OST e descobrir que era do JongHyun. Mais uma música onde a voz maravilhosa dele permanece eternizada. <3

Ah, o So Ji Sub está completamente IMPOSSÍVEL nesse drama!

Assista a “Oh My Venus” completo com legendas em português, no Kocowa Brasil.

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Jornalista que busca uma crítica além do óbvio de cultura pop asiática no Brasil. A journalist in search of creating reviews beyond the obvious about Asian pop culture in Brazil.

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